Cartuchos

I - Guerra dos cartuchos


10/01/2002 14:03:25
Mário Nagano, PC World

Sob certo ponto de vista, impressoras a jato de tinta não são diferentes de automóveis: além de úteis, estão disponíveis em vários tipos, cores e modelos que procuram atender a expectativas pessoais de seus consumidores, como versatilidade, velocidade e qualidade, além de provocar, ocasionalmente da inveja de alguns amigos e muitos inimigos.

Entretanto, qualquer que seja o preço de um carro, em algum momento, seus proprietários poderão questionar o custo da manutenção, optando em muitos casos por peças e serviços oferecidos por empresas alternativas, mesmo indo contra as recomendações do fabricante.

Algo semelhante está começando a ocorrer no mercado de suprimentos de impressão. No momento de repor os cartuchos de tinta, não é raro a cara de susto do usuário ao descobrir que um cartucho original novo pode custar até um sexto do que ele pagou pela impressora nova.

É sob esse clima de equipamentos baratos e insumos caros que uma nova indústria começou a florescer às margens do mercado formal de impressoras nos últimos dois anos. O chamado mercado alternativo de cartuchos de tinta vem procurando oferecer a mesma qualidade de impressão a um custo mais atraente.

Mas como acontece com qualquer novo produto ou serviço, surgem várias dúvidas que deveriam ser esclarecidas, já que muitas delas são respondidas com informações imprecisas ou afirmações tão alegóricas quanto a história que o uso de videogames poderia estragar o tubo de imagem de uma TV (o que não deixava de ser verdade na pré-história desses equipamentos).

Foi com o objetivo de tentar oferecer respostas diretas sobre esse novo fenômeno que o PC World Test Center conversou com vários representantes da indústria de originais, compatíveis e remanufaturados, procurando, além de separar o mito da realidade, esclarecer o usuário sobre quais são as verdadeiras vantagens e desvantagens de se optar por originais ou por compatíveis de menor custo.

 

II - Tudo é culpa do cartucho?


10/01/2002 14:36:57
Mário Nagano, PC World


A resposta mais correta seria: em parte, sim. No folclore relacionado aos cartuchos de tinta, um dos grandes mitos que depreciam o cartucho remanufaturado é o do vazamento, que pode inclusive danificar a impressora.

Luciano Piquet, diretor-presidente da Paraí Informática, afirma que o vazamento pode estar relacionado com o processo de enchimento (ver quadro O Ovo de Colombo da Paraí) e que um cartucho com problemas de incontinência pode, no máximo, encharcar a impressora de tinta.

A afirmação baseia-se no fato que a maioria das placas de circuito das impressoras não fica em locais onde a tinta pode escorrer, eliminando a possibilidade de curtos.

O uso de cartuchos não originais leva à perda da garantia da impressora? Segundo a HP e a Epson, quando é constatado que o problema foi causado por um cartucho alternativo com defeito, a política é cobrar pelo reparo, mantendo-se a garantia original.

Fernando Perfeito, gerente comercial da Rio Branco Distribuidora – que, além de distribuir cartuchos originais, é dona da marca de cartuchos compatíveis Maxprint –, explica que, pela sua experiência em comercializar ambos os tipos de cartuchos, muitos problemas inicialmente associados qualidade do cartucho estão relacionados à negligência do usuário em certos procedimentos básicos de manutenção da impressora, como a limpeza e o alinhamento dos cartuchos, pelo menos a cada troca. Perfeito vai mais longe e declara que 30% a 40% dos problemas com cartuchos analisados por sua empresa foram causados pela não remoção do lacre de respiro do cartucho.

No geral, todas as fornecedoras de cartuchos compatíveis e remanufaturados oferecem garantias que podem ir da simples troca de cartucho até a reposição de toda a impressora, se for constatado que seu cartucho é relamente o culpado.

Apesar do aparente tom de bravata, alguns fabricantes de compatíveis e reciclados esclarecem que essa é uma maneira de vencer a resistência inicial do usuário à compra de cartuchos similares, além de mostrar a confiança dos empresários honestos em seu produto. De qualquer forma, é melhor ter essa garantia do que nenhuma.

 

III - Os recicladores vão à luta


10/01/2002 14:31:01
Mário Nagano, PC World

Costuma-se dizer que a desgraça de uns pode ser a alegria de outros; fenômeno que também pode ser descrito como oportunidade de negócios.

Do mesmo modo que os atentados terroristas do dia 11 de setembro e o conseqüente medo de viajar de avião animou o mercado de videoconferência, pode-se dizer que o mercado de reciclagem de cartuchos existe graças aos altos preços dos originais.

Um exemplo clássico no ramo é o cartucho preto 51629A para DeskJet 600 e 660C, uma evolução do modelo usado na série 500 (51626A), que contém 40 ml de tinta e pode ser comprado por R$ 87 no site da HP Brasil.

Os modelos 600 e 660C foram substituídos pelos modelos 610C e 640C que utilizam um novo cartucho – o C6614D – que, apesar de ter as mesmas dimensões do 51629A, contém apenas 28 ml de tinta e custa quase o mesmo: R$ 82. Para aqueles que acharam caro, a HP ainda lista em seu site o modelo C6614N com apenas 14 ml, que não é vendido no mercado local.

Esses cartuchos da série 640 podem ser adquiridos por algo em torno de R$ 15 a R$ 20, recarregado com 40 ml de tinta, a um custo em torno de R$ 3 a R$ 5 por cartucho. Em resumo, o resultado final é um cartucho reciclado com o dobro de tinta do original que pode ser vendido pela metade do preço do original.

É por essas e outras que a indústria de cartuchos compatíveis e remanufaturados é um mercado que deverá crescer de 20% a 30% em 2002, segundo dados da Distribuidora Rio Branco.

Curiosamente, a HP tem uma posição bastante moderada com relação aos remanufaturados. Segundo Tedesco da HP sua empresa procura conviver com esse mercado – que por sinal existe em todas as partes do mundo –, além de ser política da empresa não apoiar práticas monopolistas. Para o executivo, a HP poderia ser processada, caso decidisse recolher seus cartuchos usados.

Ainda neste ano, a HP pretende iniciar um programa de coleta de cartuchos usados, com o intuito de descartá-los de maneira ecologicamente correta, algo que já acontece por aqui no segmento de baterias para telefones celulares. Tedesco observa, porém, que esses cartuchos não poderão ser comprados nem trocados, devendo ser entregues voluntariamente para descarte. Ele também comenta que existem idéias de que o lucro gerado com essa iniciativa possa ser utilizado em alguma atividade de cunho social.

Mas como qualquer negócio que cresce demais em muito pouco tempo, o mercado de reciclados é relativamente desorganizado, com um padrão de qualidade que pode variar do ótimo ao sofrível. Além disso, um cartucho ruim pode ser a ruína de todo esse segmento da indústria.

Para colocar um pouco de ordem na casa, foi criada a Associação Brasileira dos Recondicionadores de Cartuchos para Impressoras (Abreci), uma iniciativa que já conta com o apoio de 20 empresas associadas, um número ainda modesto de membros se comparado ao universo de recicladores legalmente estabelecidos (número em torno de 1,5 mil empresas).

Segundo Ulisses Rodrigues, presidente da associação e diretor da empresa Refill Products, o negócio de reciclagem existe há mais de 10 anos nos EUA e é apoiado por grandes entidades regionais que promovem feiras que contam até com a presença da própria HP por meio de sua divisão de manutenção de impressoras.

Segundo Eustáquio Moreira, porta-voz da associação, um dos primeiros objetivos da Abreci é resgatar a reputação do setor, por meio da criação de normas e procedimentos padronizados de fabricação, de modo que seus associados tenham condições de oferecer ao mercado produtos certificados e de qualidade comprovada. Para isso, a Abreci está desenvolvendo um trabalho com o Instituto Mauá de Tecnologia para a criação de um espaço dentro da faculdade dedicado ao teste de cartuchos.

Empresas interessadas em certificarem seus produtos, após se adaptarem às exigências da norma, receberão a visita de técnicos da Mauá que coletarão amostras aleatórias dos cartuchos para serem testados em laboratório. Se passar no teste, a empresa terá a permissão de colocar um selo de qualidade da Abreci na embalagem de seus produtos.

O presidente da Abreci comenta que, em princípio, a certificação será voluntária, mas a idéia é que, se o trabalho for bem sucedido, a norma seja levada para a ABNT, para ser aprovada e ganhar força de lei.

Outra bandeira levantada pela associação veio na forma de uma campanha de conscientização aos usuários contra o consumo de produtos falsificados. A Abreci colocou no ar um site sobre o assunto (www.abrecipress.org.br/falsifica.asp), mostrando meios de identificar cartuchos falsos. Segundo dados da Abreci, o mercado brasileiro de cartuchos de tinta é estimado em mais de 900 mil unidades/ano, dos quais 300 mil são falsos e apenas 100 mil, reciclados.

Uma curiosidade desse mercado é que, ao contrário de muitas falsificações, a produção é local e não contrabandeada. Rodrigues da Abreci diz que mesmo os cartuchos falsos vindos do Paraguai são de origem brasileira. Isso ocorre devido ao fato de que a matéria-prima (cartuchos vazios) tem origem brasileira e é conseguida por meio de uma agressiva política de compra de cartuchos, muitas vezes pagando preços bem acima do que é pago pelas empresas honestas, independente da qualidade do produto.

A compra de cartuchos vazios por falsificadores, segundo Rodrigues, está sufocando a indústria, já que os produtos falsos oferecem uma lucratividade maior e não existe preocupação alguma com a qualidade. A Abreci insiste que o comprometimento com a qualidade é o único caminho para se manter o negócio de cartuchos de maneira honesta.

As fabricantes de impressoras, entre elas Epson e HP, também possuem iniciativas para combater a pirataria: a HP está usando nas embalagens dos cartuchos um novo selo de originalidade não holográfico, impresso com a mesma tinta usada para as novas notas de dólar: se vista de frente, a impressão parece azul; olhada de cima, fica preta. A Epson está com uma iniciativa mais agressiva, reformulando suas embalagens no mundo todo e, devido à importância do mercado local, o Brasil terá sua própria embalagem totalmente em português, com um selo que o identifica o cartucho como um produto de uso local. Os cartuchos também terão gravuras de artistas patrocinados pela Epson, para que o usuário reconheça um original à primeira vista.

IV - Considerações finais


10/01/2002 14:32:45
Mário Nagano, PC World

O mercado de cartuchos de tinta é algo bem maior do que poderíamos imaginar. Trata-se de um segmento em franco crescimento e que ainda trará muitas novidades para o público brasileiro.

Em termos de qualidade, se o produto tiver origem conhecida e estiver cercado de todas as garantias possíveis, acreditamos que não há nada de mal em experimentar um cartucho compatível ou reciclado. O bom senso nos diz que nenhuma empresa respeitável entraria no ramo para queimar sua marca ou gastar dinheiro com reparos.

O que importa é a liberdade de escolha do suprimento que mais agrade o usuário, independente de marca ou preço – algo comum no mercado de fitas de impressão – e a satisfação com sua escolha. Caso contrário, o usuário sempre terá a opção de voltar para os suprimentos originais –de preferência, não falsificado.

Texto retirado do site: http://pcworld.terra.com.br/pcw/testes/tecno_hard/0054.html

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